
Fiscalização sobre as movimentações financeiras derrubou popularidade de Lula
A oposição utiliza a moeda digital elaborada na gestão do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), para tentar criar uma nova “crise do Pix” e desgastar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A deputada Julia Zanatta (PL-SC) lançou abaixo-assinado nesta terça-feira (11) contra o dinheiro virtual e afirmou que o governo Lula quer monitorar as movimentações financeiras dos brasileiros por meio do Drex —moeda digital em fase de testes pelo Banco Central.
“Com o Drex, cada movimento seu será rastreado, e bastará um clique para bloquearem sua conta ou sumirem com seus recursos — seja qual for a desculpa. Estamos falando de controle total sobre a sua vida financeira!”, afirmou no abaixo-assinado.
Ela também é autora de um projeto de lei que proíbe a extinção do papel-moeda e sugeriu uma PEC (proposta de emenda constitucional) para que a adoção de uma moeda digital precise ser autorizada pelo Congresso Nacional. A PEC, por enquanto, reúne 129 das 171 assinaturas necessárias para ser oficialmente protocolada na Câmara dos Deputados.
O abaixo-assinado foi apoiado pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que o divulgou em suas redes sociais nesta terça-feira e disse que o Drex é a “nova moeda digital que Lula quer criar para te dominar”. “Assim, ele controlará, por exemplo, por geo-referenciamento quais padarias seu pagamento com DREX será aceito. Contra o DREX, assine”, escreveu.
O discurso reproduz a estratégia que levou a perda de popularidade do presidente e a revogação da norma da Receita Federal que ampliava as informações recebidas com base nas movimentações via Pix para combater a lavagem de dinheiro e sonegação.
Um vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) sobre o assunto alcançou mais de 300 milhões de visualizações no Instagram e citava também a PEC de Zanatta.
O Drex, contudo, foi elaborado na gestão do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, escolhido por Bolsonaro para o cargo. Ano passado, em palestra para integrantes do mercado financeiro, ele defendeu que o Drex “vai ser mais inovador que o Pix” e melhorará “muito os ruídos na intermediação de ativos financeiros e não financeiros”.
O governo já detectou tentativas da oposição de criar um desgaste sobre o assunto e divulgou texto no fim de janeiro para explicar que a moeda digital terá outros usos. “É falso que o DREX vá substituir o dinheiro em espécie. A emissão de papel-moeda se dá por diversas necessidades e hábitos da população. A versão inicial do Real Digital será uma opção adicional ao uso de cédulas, mas —por ter foco no uso online– seu impacto sobre a demanda por papel-moeda não deve ser relevante”, disse na nota.
Apesar de a moeda ter sido estruturada na gestão de Campos Neto, Julia Zanatta disse à Folha que fez o abaixo-assinado para levantar o debate com a população, “que não sabe o que está acontecendo”, e que “não importa” o autor. “Ideia ruim é ideia ruim”, afirmou.
Eduardo Bolsonaro foi procurado sobre as críticas, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
Reportagem de Folha de S. Paulo